terça-feira, 29 de maio de 2007

10.




A dor dos anjos I

Acredito da dor dos anjos
no seu sofrimento impossível
e a noite passa diante do meu quarto
onde guardo paciente a minha vida sem destino
e um cesto ainda cheio de flores para ti

A dor dos anjos II

Confio na dor dos anjos
nos seus erros vagos
no choro suave dos camionistas
na serenidade não mais que gestual
das crianças sem mãe

Confio por meu bem na solidão da pedra
na podridão dos nossos mortos
no severo sangue do meu pai

E confio nas águas que correm lá em baixo
nas almas dos homens
e nos amores que ficam caídos sobre as correntes

A.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

sábado, 19 de maio de 2007

domingo, 13 de maio de 2007

7.


Quando se trata de definir estes trabalhos nunca sei muito bem o que dizer. Sei que gosto que tenham um certo cunho kitsch e é por isso que misturo elementos díspares e despropositados. A pagela envolvida pelas flores de plástico numa caixa forrada a espelhos cumpre essa vontade. Estes pequenos altares que me saem das mãos resultam em coisas esquisitas e não consensuais. Numa abordagem mais tradicional estes registos são, porventura, considerados, pouco ortodoxos, mas gosto deles assim e gosto que não tenham um ar convencional, gosto que sejam distintos e únicos e que não se confundam com os feitos por outras pessoas. Historicamente julgo que a vertente religiosa é sobrevalorizada e que a pagela, enquanto elemento devocional, se assume como elemento fundamental e gerador e tudo o resto possui uma função meramente decorativa. Nos meus isso não acontece. Quando escolho uma pagela escolho-a de forma (quase diria) aleatória e por motivos que podem passar para lá do santo que ela representa. Ela é, aqui, mais um elemento decorativo. É meramente uma imagem e as suas cores ou a forma como é feita a sua representação, a simbologia que lhe está associada ou que lhe associo quando faço o trabalho ou o efeito/prazer visual/estético que retiro dela naquele momento em particular são-me muito importantes. Há uma imagem constante no processo de criação de cada um destes pequenos altares privados: vejo-os sempre relacionados com um imaginário muito ao gosto de Pedro Almodovar...
Mas, sobretudo, eles dão-me muito prazer.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

6.


Tu, sim tu, merecias estar dentro de uma das minhas caixas forrada com pratas de chocolate e no meio de uma mandorla de flores rebrilhantes. Merecias por seres especial, por estares em mim, sempre, por seres registo, saudade e lembrança constante. Porque te adoro, a ti que estás dentro do meu coração/altar, tu que estás no centro, bem no âmago, do mais privado dos meus altares privados.

terça-feira, 8 de maio de 2007

5.


Isto nasceu da impossibilidade da ausência de acção e foi crescendo e ganhando forma com o passar do tempo, a curiosidade, a experimentação e a reciclagem de alguns dos materiais que uso nestes trabalhos. É assim porque as flores não param de nascer das minhas mãos, porque as cores se vão multiplicando, porque as pagelas a que não sabia o que fazer ganharam de repente um sentido, porque nas molduras se foram aproveitando as réguas de madeira já sem outro uso, porque os desperdícios de papéis e os tecidos existiram. O objectivo é conseguir fazer o máximo possível, recuperando o tempo em que não se faz nada para fazer nascer alguma coisa destas mãos que não conseguem estar paradas. É criar alguma coisa a que não sei bem o que chamar e que não consigo enquadrar, embora possam ser quadros...

domingo, 6 de maio de 2007

4.


sábado, 5 de maio de 2007

2.1


Tobite e o valor da esmola

se a tua mão secreta me devolve ainda ao trigo,
ao vinho, ao óleo, às romãs caídas, ao calor
do figo, seja eu de novo a voz entre os pinhais
e um dia a mais ainda

eu que para dormir me deitara ao longo do muro
e tivera sono como comera amor, e amara
duro como sonhara a dor, num canto escuro e fundo
do mesmo mundo longo

tenho agora aos olhos a luz da tua mão aberta
que me inspira, me cura e me consola, e saio à rua
de alma certa, a desenterrar os mortos por esmola
por mais um dia agora

mas seja eu de novo a treva ríspida da escama
se eu renegar à tribo de meu pai, ou tua mão
me chama sem crer na minha voz: ah, seja eu só
e nem mais um dia
num mundo curto
A.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

3.1



quinta-feira, 3 de maio de 2007

3.


Para mim é uma questão de lógica: tudo é guardável e quando se guarda é porque se gosta, porque faz falta, porque lembra alguma coisa.
Guardamos objectos e memórias em gavetas ou em caixas e assim as compartimentamos, as isolamos e protegemos do esquecimento.
Gosto de guardar coisas. Acho que porque me custa que pedaços de memória (ainda que por vezes não seja a minha) se percam. Arrumo esses destroços em caixas que posso pendurar, organizados ao sabor do momento, em forma de registo. Pedaços de papel de parede vintage, pagelas amarelecidas nos livros de orações das avós, restos de rendas, contas e missangas transformadas em flores, recortes de revistas, restos de tecidos e flores de pástico recuperadas ao lixo, pedaços de espelho, pratas de chocolate e o mais que me aparecer à mão, tudo pode vir parar cá dentro. É só dar tempo ao tempo...

terça-feira, 1 de maio de 2007

2.

(não disponivel)